NOTA: Foram utilizados pseudônimos e outras datas no intuito de preservar a memória e o respeito dos envolvidos. Toda e qualquer semelhança com fatos reais não passam de mera coincidência.

Imagem: Ilustrativa
INTRODUÇÃO
Nestes quase quinze anos de profissão já pude experimentar a maldade humana em vários níveis. Dentre tantos casos que estive presente é impossível esquecer o da pequena Dália, ocorrido no período da Semana Santa, em uma cidade vizinha. Às vezes as lembranças, bem como os flashes das imagens do ocorrido, me vêm à cabeça em momentos dos mais triviais. De vez em quando, nos momentos no quais estou com minha filha, olho para o rosto dela e é difícil não fazer a comparação: tinham quase a mesma idade, e, pelo pouco que conheci atuando no caso, as vidinhas muito parecidas.
Eu chefio uma Seção no Batalhão de Polícia Militar na cidade em que moro, unidade responsável pelo policiamento de treze municípios diuturnamente. Minha equipe é composta por um Sargento e mais três Soldados, somos responsáveis por produzir conhecimento acerca das manchas criminais, identificar alvos criminosos e auxiliar o Comando do Batalhão para que ele possa tomar decisões estratégicas direcionando o policiamento e esforços de segurança pública para onde se mais necessita. Às vezes também atuamos em operações em conjunto com outras forças de segurança, seja diretamente no teatro de operações ou de maneira mais administrativa, processando dados, informes, denúncias etc.
Outrora, em outra função, logo quando cheguei à cidade, em um dos meus primeiros plantões policiais, me deparei com uma ocorrência que salientou a natureza nefasta do homem. Ainda sinto o cheiro do ambiente em que encontramos uma grávida, com oito meses de gestação, assassinada pelo companheiro com um tiro de revolver na nuca, lembro com detalhes do vestido listrado da vítima, deitada de bruços, pés calçados em chinelos dispostos com os dedos fincados na terra, a cabeça com a face voltada pro chão, o cabelo esvoaçado, a pequena poça de sangue, as mãos retorcidas, a pele se soltando do corpo por conta da exposição severa e contínua ao sol. Lembro de toda a imagem, mas o que mais se destaca para mim é por conseguir, como num super poder ruim, sentir o cheiro do ambiente da morte, me recordo do barrigão que abrigava uma pequena vida…uma vidinha; barriga torta, contorcida para o lado, a gravidade acondicionando o corpo à terra, ao solo. Quando a perícia chegou, virou o corpo de frente, a barriga permaneceu deformada, torta para o lado, a moça morreu agonizando, ela e a vidinha ali contida. Soube pelos peritos em outros tempos, que a criança morreu horas depois da mãe, sufocando.
PARTE I
Voltando ao caso que iniciei este ensaio, tudo aconteceu numa quinta-feira que antecedia a Sexta-Feira da Paixão, final da quaresma para os Cristãos, Semana Santa, recebi uma determinação para que deslocasse com minha equipe para a cidade vizinha, a fim de ajudar nas buscas de uma criança que havia desaparecido no dia anterior. Àquela altura já se faziam aproximadamente vinte e quatro horas do desaparecimento. Eu deveria, em conjunto com a equipe de policiais civis e militares daquela cidade, intensificar as buscas, auxiliar no que fosse necessário. Foi formada uma força tarefa com o intuito de refazer os passos da pequena. Ao chegar na cidade fomos recepcionados pela equipe de policiais civis e em conjunto nos direcionamos até o bairro de residência da família da vítima. Lá pude perceber uma extensa pastagem que circundava todo o bairro, uma área imensa que certamente, se a criança tivesse ido por ali, estaria perdida.
Preciso dizer que desde a minha chegada na cidade até o triste desfecho, sempre mantive dentro de mim a esperança de que a pequena Dália fosse encontrada com vida, assustada, perdida no matagal, ou, quem sabe, na pior das hipóteses, sequestrada e presa em alguma das inúmeras árvores ou casas abandonadas que existem na região. Ao passar do tempo a esperança de encontrar alguém nessas condições perdido e com vida vai diminuindo, um adulto naquela situação já seria complicado, imagine uma criança de apenas cinco anos de idade, pois é… uma vidinha!
Seguimos o protocolo, conversamos com o máximo de pessoas possíveis que conheciam Dália: os pais, as amiguinhas, os vizinhos, todos que podiam nos dar uma direção, precisávamos de uma linha de investigação, um ponto de partida. Parecia mais um daqueles casos emblemáticos que ficariam sem elucidação por muitos anos. Quem poderia a ter sequestrado, quem poderia estar com ela em cativeiro ou pior, quem afinal teria dado cabo da vida de Dália.
Amigos! No bairro, toda casa parecia um cativeiro, todo carro que passava eu imaginava que ela poderia estar amarrada e amordaçada numa mala daquelas, uma agonia.
O cérebro e o momento, bem como o stress nos pregam peças, todos parecem suspeitos e se você não focar, não abstrair as ideias que vêm na mente, você suspeita de todos, você se pega capaz de imaginar que o pai, que a mãe, que os irmãos, que os tios, que todos podiam ser os culpados, que todos podiam ser os assassinos, todo treinamento policial do mundo não é capaz de ajustar sua mente perfeitamente para o desvendar de uma situação dessas, a sanha é de conseguir resolver tudo de uma vez, mas o maior desejo e fantasia que se avolumavam dentro de mim era os de recuperar a vidinha, de trazê-la mesmo que fraca e entregar aos pais chorosos e desesperados.
A noite começava a se avizinhar, o sentimento de impotência aumentava junto, impossível não me imaginar naquela situação, como pai, não imaginar a minha filha, a pequenina Marina perdida no mato, com fome, com frio… – Papai! Papai! onde estás que não me responde, tenho sede, tenho fome, tenho frio, tenho medo. – Meu Deus! –.
PARTE II
Me arrependo de todas as vezes que repreendi minha Marina, quando em casa, de ter ido para o quarto da gente durante a noite, com medo do escuro. Ah! aquele mal que te sufoca, aquela notícia que você não quer receber, aquela verdade que te deixa congelado, frio, que sobe por sua espinha, que te empalidece e tremula tua voz.
A última pessoa que viu Dália? Quem foi? Pra onde Dália teria ido? Já era noite adentro quando começamos a suspeitar de um jovem que havia a recebido no dia anterior em casa quando ela buscava sua irmã para brincar, tinha que ser ele, era ele, só podia ter sido ele e… infelizmente foi ele.
Depois de muitas buscas e tentativas, identificamos o adolescente que deu fim à vida de Dália, um jovem de quinze anos, vizinho, que tinha uma irmã amiga de Dália e que costumavam brincar nas tardes depois da escola. Ele confessou.
Dália havia ido até sua casa em busca da irmã do seu algoz para poder brincar de boneca. A menina não estava, então ali eu acho que algo se manifestou dentro dele, espiritual ou não, ao ouvir o chamado da pequenina em seu portão e estando sozinho dentro de casa, o assassino a atendeu e encontrou a oportunidade que ele pretendia, não posso dizer que surgiu no momento, ou surgiu depois, mas sabemos que ele a puxou para dentro de casa, a sufocou até quase perder os sentidos, a estuprou e, após, quando a vidinha ali se esvaiu, percebeu que precisava se livrar do corpo como quem se livra de um trapo qualquer.
Mas precisava ser rápido, alguém podia chegar, então a envolveu em mais sacos plásticos, amarrou seus pequenos membros, não podia olhar no rosto dela, a enrolou com mais sacolas, como se não conseguisse encara-la, a reduziu ao tamanho de um pequeno pacote, saiu para o quintal e a jogou por cima do muro, depois rodeou a casa, a carregou por uns vinte ou trinta metros em direção àquela imensidão de pastos, cavou uma cova rasa, depositou a vidinha com a cabeça voltada pra terra e a cobriu de terra.
Depois de tudo e por dever da profissão e à sociedade a qual jurei proteger, eu e minha equipe resguardamos a vida do jovem assassino, sua integridade física, e o conduzimos para as autoridades.
As pessoas me questionam a todo momento se ele havia dito o motivo, o porquê de fazer mal a uma criança indefesa, inocente… e incrivelmente hoje, mesmo tempos depois do crime, eu me encontro surpreso de não ter essa resposta, quero dizer, resposta ele até nos deu, ele nos disse que a matou porque não suportava sua voz, porque ela ia atrás de sua irmã, disse que a matou porque ela “o perturbava”. Mas eu não tenho essa resposta, não me convence, mesmo tendo o entrevistado tantas vezes naquele dia, antes e depois da confissão, feito a mesma pergunta de diversas maneiras, de todas as formas – Por que? – não acho que foi por isso, que tenha sido só por isso, sinto que foi porque a sua natureza é essa, porque ele foi cruel, porque ele estava com desejo de cometer o mau, e depois que cometeu, tinha que dar fim na vida dela, mas acima de tudo, ele o fez porque podia fazer, porque tinha poder para fazer.
O jovem assassino não possuía uma fagulha do que é uma família, a residência não tinha um quê de lar, são dessas crianças criadas sem poder familiar, sem referência de pais, soltos no mundo, sem limites e sem exemplos. Não busco justificar o crime, não se justifica uma bestialidade dessas. É somente a minha visão, a minha opinião baseada nas minhas vivências, somente nas minhas.
A intenção de escrever esse texto não é de expor as pessoas envolvidas, não é de afagar egos de nenhuma das partes que elucidaram o evento, deixo esses detalhes para os que se interessam em floreios a apoteose, a intenção de produzir um texto como esse é de tentar extrair de dentro de mim uma reflexão feita por mim mesmo, a intenção é justamente olhar pra dentro, observar as feridas da alma, é olhar para fora também, é tentar compreender e mostrar para os outros que não podemos subestimar o outro, às vezes, ainda, em roda de amigos, vejo alguém se surpreender com algo assim, e isso por sua vez, me chama atenção, será que tem alguém, um ser humano médio que ainda se surpreenda com a maldade das pessoas?
PARTE III
Hoje quando estou devaneando em pensamentos, quando estou numa roda de amigos, ou quando estou no trabalho, ou correndo, absorto nas minhas ideias, ela vem, aparece quando estou no banho, numa reunião com amigos, numa reunião de trabalho, dirigindo e ouvindo uma música, ou assistindo o meu time de futebol jogar, às vezes antes de dormir, naqueles minutos que antecedem a chegada do sono, chega também como num susto, como alguém que te surpreende, chega como um passarinho ao pousar na janela e vem de mansinho, e se instala no meu coração, a imagem de Dália. Lembro dos álbuns de fotografia dela com sua família, penduradas nas paredes de sua casa, ou em cima de uma estante; me recordo do sorriso na foto, do olhar ansiando pelo mundo, ansiando pela alegria de viver, e imediatamente como uma tempestade que se forma e cai rapidamente, me vem sua imagem envolta nos sacos plásticos, amarrada e suja de terra. Será que ela estava viva quando foi enterrada? Será que se eu chegasse mais cedo, minutos antes, ainda a encontraria com vida? Será que se tivesse chegado antes poderia entregar ela com sua Vidinha para seus pais?
– Imagino quão feliz seria devolver Dália com vida aos seus -.
Semanas depois ao ocorrido formamos uma comitiva e junto com o Comandante entregamos à mãe de Dália um jarro com flores, uma homenagem dos policiais militares envolvidos na triste ocorrência. Rostos sofridos nos receberam, a mãe ainda chorosa, perdida, sem saber para onde ir, nem o que pensar. Nesse momento me ative a uma senhora de choro baixinho e contido no canto da sala, percebi aquele choro com ar de sabedoria, de alguém que viveu muito na vida, um choro misturado de resignação e lamento, extremamente doloroso, era a Vózinha da Vidinha.
Não pude evitar a comparação com a minha mãe, trejeitos humildes, cabelos brancos, testa franzida, marcada pelo tempo; talvez pela primeira vez na vida eu percebi o amar em outra pessoa, quero dizer, aquela máxima de que Vovó ama duas vezes, lembrei do amor que minha mãe sente por Marina, minha filha, aquele amor de Vó, amor profundo, puro, singelo, mas forte como um moinho. Não posso julgar o amor da Vó de Dália, jamais ousaria, mas na minha infinita insignificância perante as intempéries desse mundo, eu só tive a ação de estender os braços para abraça-la, e a abracei, por um momento me senti inebriado daquele amor, da caridade, da pureza e da simplicidade, uma onda de ressignificação.
No dia do fato, quando cheguei em casa às 04h da manhã, sentindo um nó muito forte na garganta, fui olhar minha Marina, em paz dormindo, fiquei ao lado dela até o sol raiar no horizonte, a cobri com sua coberta, não sentia vontade de sair de perto dela. Toda a fibra do meu ser vibrava em protege-la.
Enfim, concluída a ocorrência, pontos protocolares providenciados, passados os dias, meses, passado o tempo, tentamos seguir com a vida, tentamos pensar em outras coisas e acabamos ocupando a mente com outros afazeres, com outras rotinas, mas a sensação que tenho é que a figura intangível da Vidinha sempre vai pairar entre meus pensamentos, seja ao acordar, seja ao olhar para minha filha, olhar para outras crianças, olhar para outras pessoas.
Eu sei que a visita é certa, nem sempre tão cedo, às vezes talvez mais tarde, mas sim! Eu sinto quando ela chega, sinto quando ela vem vindo, eu já conheço seu leve bater de asas e quando menos espero, a vejo pousando, como um passarinho… na minha janela.
Autor: Emmanuel Carvalho Bispo
Um Capitão da Polícia Militar da Bahia
Texto revisado pelo Dr. Marcel Campos da Silva Evangelista
Um Advogado
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