Texto: Wilix Gabriel – Delegado de Polícia Federal

Foto: Reprodução/Internet
“Então, meu treinador disse que tinha uma ideia doida pra me dar, eu fiquei na 1, né vei, mas também nem me liguei na hora, porque esse bicho é pelo certo. A gente se bateu no ginásio e ele me ofereceu um geladinho disse “tome chupe ai”… Lá ele, em suas costas. Brincamos, ele botou a base de brincadeirinha, acertou um soquinho no meu bucho, clima gostoso. Pow vei, bata devagar, na moral, pivete, daí ele emendou “É pra você já ir pegando a visão”.
Na hora eu fiquei Cabrera, e pensei “qual foi desse bicho”, mas como o sacana é niuma mesmo, eu perguntei. Sim, vei, e a onda lá em Paris, qual foi de mermo? Vai rolar?
“Vai nega, tá tudo certo… Só que” disse ele. Bora, mermão, dê sua ideia. “É que os cara lá deram uma condição, papo de firmeza mesmo, coisa de ficar pra história e tal, ai confirmei pra nós, tá ligado né, você é minha e boi não lambe”
Eu já fiquei com uma pulga atrás da orelha, ele balançou a cabeça e largou o doce “Tu vai truvá com um maluco”. O que? Com um pivete? Oxi, mas e pode? Aí é cachorrada. “Não carai, é uma mulher, só que trans” esclareceu ele, achando que isso resolvia tudo.
A única coisa que me veio na mente foi: QUE LARANJADA. Se eu for, vou tomar pau pra dez, sozinha, se eu não for vai parecer que tô de fuleragem.
Fui pra parada, botei minhas luvas, roguei a Deus e na beira de subir pensei… Tô fazendo o certo, inclusão, agregar, pensar nas pessoas, na diferença e na igualdade, é isso, tô certa, tô fazendo minha parte para um mundo melhor para as pessoas que sofrem, botei as base e na primeira botada… TELA PRETA.
Vei que desgraça foi essa? Tomei um megaton na mesa do queixo, porra fiquei procurando parece para me segurar, véi. Chamei meu treinador e gritei, Oh Seu lá ela, pode até ser uma mulher trans, mas o murro não é trans não.
Vou pinotar daqui, quem vai lutar mais é o coelho, dor da cepraca.”
Do jeito que eu contei até que ficou engraçado, mas a verdade é que nem todo mundo riu.
A inclusão e o respeito às pessoas esbarram na maior das feras humanas: A REALIDADE. Ninguém nega que pessoas que nascem com um gênero distinto sofrem, ninguém nega que a sociedade não aceita e trata como escória e que se busca a aceitação de forma coercitiva, pois se depender da nossa odiosa natureza humana, nunca seria possível.
Mas ninguém nega a distorção que isso PODE gerar. Será que hoje a causa foi fortalecida ou exposta de uma maneira ruim? Hoje o mundo está mais tendente a entender o julgar a causa trans?
E sendo sincero, olimpicamente falando, eu sou contra a participação de mulheres trans em esportes femininos em que a estrutura física seja relevante, como é o caso do boxe (para quem reclama que eu nunca me posiciono). E isso quer dizer que eu sou transfóbico? Não! (ou talvez sim, depende do ponto de vista).
Para além dos pronomes, dos preconceitos disfarçadas de piadas, temos que ser coerentes e equalizar o respeito a estas pessoas e suas personalidades e claro os direitos que são oponentes a todos, digo, todes.
E como diz o velho ditado: murro dado ninguém tira.



