Acusação aparece em proposta de delação premiada rejeitada pela PF e pela PGR; defesa do senador nega as alegações e afirma que declarações são falsas.
Foto: Assessoria/Banco Master e Carlos Moura/Agência Senado
O ex-banqueiro Daniel Vorcaro afirmou, em uma proposta de colaboração premiada que acabou rejeitada pela Polícia Federal (PF) e pela Procuradoria-Geral da República (PGR), que um grupo político ligado ao senador Jaques Wagner (PT-BA) receberia cerca de R$ 3 milhões por mês em supostas vantagens indevidas relacionadas à operação do Credcesta, cartão de crédito consignado destinado a servidores públicos da Bahia. A informação foi divulgada inicialmente pelo UOL nesta sexta-feira (25).
Segundo o relato atribuído a Vorcaro, os pagamentos ocorreriam por diferentes mecanismos. Cerca de R$ 2 milhões mensais seriam repassados por meio de um contrato entre o Banco Master e a PKL One, empresa que explorava o Credcesta. Outros R$ 1 milhão seriam pagos em espécie, segundo a proposta de delação.
O ex-banqueiro afirmou, porém, que não teria presenciado o suposto acerto. De acordo com o documento, ele teria tomado conhecimento dos pagamentos por meio de seu ex-sócio Augusto Lima, que nega as acusações.
Suposto esquema envolvendo o Credcesta
Ainda conforme o relato de Vorcaro, o grupo político teria recebido outras vantagens por meio de distribuição de lucros e dividendos da PKL One e de contratos que ele classificou como fictícios.
A proposta também cita contratos envolvendo pessoas supostamente indicadas por Wagner, incluindo um acordo relacionado a uma filha do senador e uma empresa offshore.
Vorcaro afirmou que a negociação envolvendo o Credcesta teria sido articulada em 2018. Segundo o documento, o Banco Master teria desembolsado R$ 30 milhões para adquirir participação na PKL One e combinado uma divisão dos lucros.
O contrato entre a PKL One e o Banco Master confirma a previsão de pagamentos mensais de aproximadamente R$ 2 milhões classificados como despesas operacionais. Entretanto, segundo a apuração do UOL, o documento não identifica Jaques Wagner ou outro político como beneficiário e, isoladamente, não comprova que os valores fossem destinados ao pagamento de propina.
Empresário é apontado como suposto operador
Na proposta de colaboração, o empresário Guilherme Henrique Sodré Martins, conhecido como Guiga, é apontado por Vorcaro como suposto operador ligado a Jaques Wagner.
Documentos mencionados na reportagem confirmam que Sodré possuía participação de 22,45% no fundo Gardênia, que tinha participação indireta na PKL One até dezembro de 2018. Os documentos, contudo, não comprovam que essa participação representasse Wagner.
O UOL também informou que a proposta de delação foi rejeitada porque PF e PGR consideraram que os relatos apresentados não estavam acompanhados de elementos suficientes de corroboração.
Defesa de Jaques Wagner nega acusações
A defesa do senador Jaques Wagner negou as acusações apresentadas na proposta de delação.
Segundo os advogados, as declarações são falsas e não há vínculo entre Wagner e a PKL One. A defesa também afirmou que o senador nunca teve relação com Daniel Vorcaro e que não atuou em favor dos interesses do Banco Master.
A defesa de Augusto Lima também classificou as acusações como falsas e afirmou que os serviços previstos no contrato entre a PKL e o Banco Master foram efetivamente prestados.
Já a defesa de Daniel Vorcaro declarou que não reconhece a autenticidade e a integridade do material divulgado e repudiou a divulgação de supostos anexos relacionados às tratativas de colaboração premiada.
Acusações ainda não comprovam os pagamentos
A proposta de delação apresenta uma série de alegações feitas por Vorcaro, mas a própria reportagem destaca que os documentos disponíveis não demonstram que os valores tenham sido efetivamente entregues a Jaques Wagner ou a integrantes de seu grupo político.
Também não está comprovado, a partir dos documentos apresentados, que Guilherme Sodré atuasse em nome do senador.
O caso faz parte das investigações envolvendo o Banco Master e ganhou repercussão no cenário político baiano em meio ao ano eleitoral. As acusações apresentadas por Vorcaro permanecem contestadas pelas defesas e não foram validadas pela PF ou pela PGR como base suficiente para a celebração de um acordo de delação.
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